Há algo muito humano e também muito doloroso, na relação entre pais e filhos: a dificuldade de enxergar o amor quando ele não vem embrulhado em favoritismo.
Muitos filhos carregam dentro de si a sensação de que o outro foi o preferido.
Olham para o irmão e enxergam vantagens, cuidados, gestos que parecem maiores do que aqueles que receberam.
E assim nasce uma comparação silenciosa, que vai apagando da memória tantas pequenas provas de amor que aconteceram ao longo da vida.
O que às vezes não se percebe é que o amor de pai e mãe raramente é dividido em partes iguais, ele é distribuído conforme a necessidade de cada momento.
Há filhos que precisaram de mais colo, outros de mais firmeza, alguns de mais proteção, outros de mais liberdade. Não porque fossem mais amados, mas porque eram diferentes.
Pais passam anos abrindo mão de si mesmos: noites mal dormidas, preocupações silenciosas, escolhas difíceis, sacrifícios que muitas vezes ninguém vê.
E mesmo assim, ainda existe o risco de que um filho olhe para tudo isso e diga:
“Você sempre preferiu o outro.”
Talvez porque o amor verdadeiro não faz propaganda.
Ele está nas contas pagas, nos conselhos repetidos, nas broncas que queriam proteger, nas oportunidades criadas, nos medos guardados em silêncio.
Com o tempo, muitos filhos acabam percebendo.
Às vezes só quando também se tornam pais, ou quando a vida mostra o tamanho do esforço que existe por trás de cuidar de alguém.
E então entendem uma grande verdade:
não existia filho preferido, existiam apenas pais tentando amar do melhor jeito que sabiam.
Porque no coração de quem ama de verdade, não há competição entre filhos.
Há apenas um amor imenso tentando alcançar cada um deles à sua maneira.
Mary Marques




