Quando a fé é usada para ferir
Há histórias que nos revoltam não apenas pelo que aconteceu, mas pelo número de pessoas que poderiam ter sido salvas se alguém tivesse tido coragem de dizer: “Isso está errado.”
Assistir a histórias como a de Paul Schäfer nos faz pensar sobre o poder que um homem pode exercer sobre tantas pessoas quando consegue transformar religião, medo e autoridade em ferramentas de controle. E talvez uma das partes mais assustadoras seja perceber que a manipulação nem sempre começa com violência. Às vezes começa com uma promessa: a promessa de salvação, de proteção, de pertencimento, de um lugar onde finalmente alguém se sente acolhido.
E, pouco a pouco, a pessoa deixa de questionar.
Quando a fé é usada para controlar, o nome de Deus pode acabar sendo colocado justamente onde Deus jamais deveria estar: ao lado do medo, da humilhação, do abuso e do sofrimento.
E então vem uma pergunta que dói:
Onde estava a justiça?
Porque a justiça dos homens, infelizmente, muitas vezes chega tarde. Às vezes chega incompleta. Às vezes nem chega.
E enquanto os processos terminam, os culpados morrem ou escapam, as vítimas continuam vivendo com aquilo que lhes foi feito.
Algumas carregam depressão. Outras carregam culpa. Outras passam a vida tentando entender por que não foram protegidas. Algumas perdem a capacidade de confiar. Algumas perdem a própria vontade de viver.
E é impossível não pensar nos traumas que atravessam gerações.
Por isso, quando alguém fala em “justiça de Deus”, eu consigo compreender de onde nasce essa esperança.
Não necessariamente como uma promessa de que algum dia veremos o culpado sendo castigado diante dos nossos olhos. Mas como a esperança de que o sofrimento de uma vítima não foi invisível.
Talvez seja essa a única justiça que muitas pessoas conseguem agarrar quando a justiça humana falhou: acreditar que existe algo maior que viu cada lágrima, cada noite de medo, cada pedido de socorro que ninguém ouviu.
Porque há dores que não cabem em uma sentença judicial.
Há feridas que não desaparecem quando um processo termina.
E há histórias que jamais poderão ser desfeitas.
Mas existe algo que precisamos aprender: fé não deveria produzir medo de Deus; deveria produzir liberdade.
Religião não deveria exigir que alguém silencie sua dor para provar sua fé.
Nenhum líder deveria ser colocado acima da consciência de uma pessoa.
Nenhum homem deveria usar o nome de Deus para exigir obediência cega.
E nenhuma criança deveria aprender que sofrer em silêncio é uma forma de agradar a Deus.
Talvez uma das maiores formas de honrar quem sofreu seja justamente não permitir que essas histórias sejam esquecidas.
Porque falar sobre elas é lembrar que a fé precisa vir acompanhada de consciência. Que espiritualidade não elimina o pensamento crítico. Que bondade não significa obediência cega. E que ninguém — absolutamente ninguém — deveria receber poder ilimitado simplesmente porque diz falar em nome de Deus.
No fim, talvez eu não consiga provar que existe uma justiça divina.
Mas consigo entender por que quem sofreu precisa acreditar nela.
Porque quando a justiça dos homens falha, a esperança é muitas vezes a última coisa que resta.
E talvez acreditar que Deus viu aquilo que ninguém viu seja, para algumas vítimas, a maneira de continuar vivendo.
Não para esquecer.
Não para justificar.
Mas para dizer a si mesmas:
“O que fizeram comigo não define quem eu sou. Minha dor foi real. Minha história importa. E, mesmo que os homens tenham falhado comigo, eu ainda posso escolher não deixar que o mal tenha a última palavra.”
Mary Marques- sobre a série A Divina Colônia




