Dói quando a presença só chega quando a vida já virou silêncio.
Há um vazio difícil de explicar quando percebemos
que, para nos ver vivos, é preciso quase implorar — negociar tempo, justificar
sentimentos, pagar a distância.
Mas para a morte, não há obstáculos: não falta
dinheiro, não falta esforço, não falta agenda.
A ausência, curiosamente, só pesa quando já não há
mais quem a sinta.
Isso não fala sobre amor inexistente, mas sobre
prioridades confusas. Muitos só entendem o valor da presença quando ela já não
pode mais ser entregue.
A morte impõe uma solenidade que a vida,
injustamente, não recebe.
Como se o cotidiano fosse eterno e o adeus, urgente.
O pensamento machuca porque revela uma verdade
incômoda: amar vivo exige escolha, renúncia, responsabilidade.
Honrar os mortos é mais simples — não exige
convivência, nem paciência, nem entrega diária.
Talvez a maior tragédia não seja faltar ao enterro,
mas faltar à vida enquanto ela ainda chama.
Porque no fim, o que mais dói não é quem partiu… é
quem ficou esperando por quem ainda podia ter vindo.
Mary Marques
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