Me tornei bisavó porque o tempo, com toda a sua sabedoria, me permitiu viver o suficiente para ver a vida florescer de novo e de novo. Carrego no peito a memória de quem eu já fui: uma menina cheia de sonhos, uma mulher aprendendo a se conhecer, uma mãe se descobrindo no amor, uma avó que se emocionava com cada risada dos netos. E agora, uma bisavó, abençoada por presenciar um milagre que não cabe em palavras: a continuidade.
Me tornei bisavó porque o amor que plantei não morreu. Ele atravessou o tempo, sobreviveu às minhas dores, cresceu junto com minhas vitórias e chegou até aqui, transformado em novos corações que batem do lado de fora de mim. Cada nova vida na minha família é um pedaço meu e do meu bem querer, uma poesia escrita sem papel, mas gravada na eternidade.
Ser bisavó é olhar para trás e entender que tudo valeu a pena. Cada riso, cada lágrima, cada noite em claro, cada renúncia. Tudo me trouxe até este momento: o de segurar nas mãos um pedacinho do futuro, feito de sangue, memória e esperança. É como se a vida me sussurrasse: “Veja, você deixou sua marca. Você está no mundo para além de você mesma.”
Eu me tornei bisavó porque, apesar dos tropeços, eu amei. E amar, no fim das contas, é o que nos mantém vivos, mesmo depois que partirmos. No olhar de um bisneto, eu me encontro jovem outra vez. No sorriso dele, eu vejo o reflexo da minha própria história, renascendo.
E, enquanto escrevo estas palavras, sinto uma gratidão imensa. Pela vida, por quem eu fui, por quem eu sou e por tudo o que ainda continua através de mim. Porque ser bisavó é isso: é existir em muitas formas ao mesmo tempo, é ser raiz e também ser flor.
Sou bisavó porque o amor que plantei floresceu além do tempo. E enquanto houver vida nos meus descendentes, uma parte de mim será eterna.
Mary Marques

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